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Programa Corredor Verde: Pituba.net ouve especialistas sobre desafios ambientais

Programa Corredor Verde: Pituba.net ouve especialistas sobre desafios ambientais
Praça N. Sra. da Luz, onde foi iniciado o plantio. Foto: Lucca Fróes / Pituba.net

No dia 22 de agosto, a Prefeitura de Salvador lançou oficialmente o programa Corredor Verde, que prevê o plantio sistemático de árvores em dez avenidas soteropolitanas até o final de 2028. O lançamento aconteceu na Av. Manoel Dias da Silva, na Pituba, com o plantio de quatro árvores entre 115 que têm plantio previsto na avenida até o final de setembro.

A iniciativa representa uma tentativa da prefeitura de recuperar a arborização de Salvador, que tem se perdido com o crescimento da cidade e é fundamental para a regulação da temperatura em zonas urbanas, entre outros benefícios. O Pituba.net ouviu especialistas para avaliar a importância do tema, a pertinência do programa Corredor Verde e os desafios que Salvador enfrenta para ser mais sustentável.

A importância das árvores nas cidades

A arborização nas zonas urbanas tem importância muito além da estética. Segundo a arquiteta e urbanista Deborah Padula Kishimoto, coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unijorge, as árvores regulam a temperatura, reduzem a poluição do ar, amortecem o ruído e ainda contribuem tanto para a infiltração da água da chuva quanto para o aumento da biodiversidade.

“Em sala de aula, sempre destaco que pensar o verde urbano é pensar saúde pública, infraestrutura ecológica e qualidade de vida”, explica Deborah Kishimoto. Para a professora, os benefícios da arborização causam impacto direto na saúde física e mental da população, oferecendo “conforto térmico, bem-estar psicológico e espaços mais acolhedores”.

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Uma das quatro árvores plantadas no lançamento do Corredor Verde, junto à Igreja N. Sra. da Luz. Foto: Lucca Fróes / Pituba.net

A arborização em Salvador

Assim como muitas metrópoles brasileiras, Salvador perdeu arborização ao longo dos anos devido ao crescimento desordenado. Segundo Perimar Espírito Santo de Moura, biólogo, Doutor em Ecologia pela UFBA e professor do IF Baiano, a perda da vegetação da Mata Atlântica é uma realidade há séculos em Salvador e na costa baiana de forma geral, porém intensificada com a urbanização da era contemporânea. “A especulação imobiliária acabou sobrepondo as questões ambientais e tivemos, nas últimas décadas, centenas de árvores centenárias derubadas para abrir vias como a Paralela e condomínios de luxo como Alphaville”, diz o professor.

Kishimoto segue linha similar: “A expansão urbana, muitas vezes desordenada, comprometeu a arborização de bairros inteiros. Em Salvador, isso é visível em regiões que priorizaram a pavimentação e o adensamento construtivo em detrimento do verde”, diz.

Um horizonte verde?

O programa Corredor Verde propõe revitalizar a arborização de Salvador através do plantio sistemático de árvores em vias estratégicas da cidade. Na Av. Manoel Dias, devido à proximidade do mar, estão sendo plantadas espécies com resistência maior à salinidade, como o oiti de praia e o abricó-de-praia; já em outras avenidas, o programa plantará pés de pau-brasil, jacarandá e ipê.

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Deborah Kishimoto e Perimar Moura, especialistas ouvidos pelo Pituba.net

Perimar Moura destaca a importância da escolha adequada das espécies de árvores. “Chama a atenção a escolha de árvores nativas da Mata Atlântica, coisa que infelizmente a maioria das cidades pelo Brasil não se atentou, utilizando plantas invasoras e causando danos ambientais. No Corredor Verde, a escolha foi acertada, com árvores de bom porte, bom sombreamento e algumas de grande beleza, como os ipês”. No entanto, é necessário tomar cuidados adicionais: “É preciso verificar a área de ocupação de cada árvore, especialmente suas raízes; a quantidade necessária de água para irrigar e o preparo do solo também devem ser observados. Para algumas espécies talvez seja necessário um sub-bosque, que é a vegetação que vem abaixo dessas árvores na natureza”, complementa.

Deborah Kishimoto também vê o lançamento do Corredor Verde de forma positiva. “Considero um passo importantíssimo. Vejo como um avanço, mas o maior desafio está em levar essa iniciativa para os bairros mais densos e quentes da cidade”, observa. A relevância do projeto, entretanto, vai além do bem-estar da população: “Os corredores verdes fazem parte de um ciclo vital mais amplo, oferecendo abrigo à fauna, proteção às espécies migratórias e criando rotas aéreas que reduzem a vulnerabilidade dos animais em relação ao asfalto”.

Desafios ambientais

A falta de arborização adequada é um entre diversos desafios ambientais enfrentados por Salvador, convivendo com a poluição do ar, dos rios que cortam a cidade – em grande parte, tamponados – e o descarte inadequado de lixo, por exemplo. “Salvador necessita de uma ampla rede de saneamento básico para evitar que o esgoto siga poluindo nossos mananciais de água. Muitos dos rios que cortavam a cidade foram impermeabilizados porque viraram esgoto, gerando alagamentos em vários pontos da cidade, pois eram um ponto de escoamento da água da chuva. O ideal seria recuperar esses rios e tratar o esgoto devidamente”, observa Moura.

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Por enquanto, o Corredor Verde tem mais placas do que árvores plantadas; esforço está apenas no início (Foto: Lucca Fróes / Pituba.net)

O esforço em prol de uma cidade mais sustentável passa por um entendimento mútuo do poder público, iniciativa privada e sociedade civil, o que Kishimoto chama de “visão sistêmica“. Para a professora, não basta que o poder público coloque a infraestrutura verde e a pauta ambiental como prioridades. “A iniciativa privada pode contribuir em projetos de compensação e parcerias, enquanto a sociedade civil tem papel essencial no cuidado diário das árvores e na cobrança por políticas consistentes”, salienta.

Por fim, é preciso ter a compreensão de que, ao atacar o problema da falta de arborização, o projeto Corredor Verde, por mais acertadas que sejam suas intenções, não tem o poder de resolver os problemas climáticos e ambientais de Salvador como um todo, que, como vimos, são amplos e complexos. “A arborização dos centros urbanos não deve ser vista como a salvação das questões climáticas”, adverte Moura. Combater problemas contemporâneos como o desmatamento, as monoculturas e a industrialização desordenada sem cuidados ambientais, tanto na zona urbana quanto no interior, é fundamental para o equilíbrio do meio ambiente como um todo.

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